Sumário

5. BREVE HISTÓRICO DA INDUSTRIALIZAÇÃO DA CONSTRUÇÃO NO BRASIL

5.4 Etapa de Consolidação e Expansão da Construção Modular e Off-site (de 2011 a 2025)

Essa etapa já possui um ótimo registro histórico do colega Jose Marcio Fernandes, da Kata Off-site, em seu artigo: “Construção Off-site em HIS no Brasil: Histórico e Tendências de Evolução”, publicado pela Terracotta Ventures (FERNANDES, J, 2026). Tomo a liberdade de utilizar boa parte do conteúdo pesquisado e reunido por ele nessa seção, complementando o material com mais registros históricos sobre este período. Jose Marcio aponta que o uso da construção off-site em Habitações de Interesse Social (HIS) no Brasil tem como fundamento o ano de 2011, quando foi publicada a primeira diretriz técnica para sistemas construtivos industrializados em Light Wood Frame, no Sistema Nacional de Avaliação Técnica (SINAT), um mecanismo oficial do governo brasileiro — vinculado ao Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H) — criado para avaliar produtos, sistemas construtivos e tecnologias inovadoras na construção civil. De forma sintetizada, Jose Marcio destaca que “o Brasil viveu a Fase dos Pioneiros (2012-2022), quando empresas como a Tecverde comprovaram a viabilidade da construção modular e off-site. Após este período, ingressamos na Fase dos Colonizadores (2023-2025)”, com ampliação de normas e de tipologias de edifícios multifamiliares, em escala industrial, demonstrando a viabilidade da construção modular e off-site e a sua competência para colaborar na redução do déficit habitacional. Pretende-se organizar o texto a seguir, extraindo informações do artigo do Jose Marcio, subdividindo o conteúdo nestas duas etapas. De forma a enriquecer a reconstituição histórica, o autor efetuará a complementação de informações e de registros de fatos relevantes ao longo deste período.

5.4.1 Fase dos Pioneiros (2012-2022)

Em 2012, a Construtora Roberto Ferreira, com apoio técnico da Tecverde, iniciou uma operação fabril em Pelotas-RS, viabilizando a construção do Residencial Haragano, que consiste em 280 sobrados no programa MCMV (Faixa 1). Nos anos seguintes à inauguração da fábrica de Pelotas, novos empreendimentos foram realizados no Rio Grande do Sul, contribuindo para o desenvolvimento técnico e operacional do setor. Em 2013, foi emitido o primeiro Documento de Avaliação Técnica (DATec), validando o sistema construtivo Light Wood Frame no Brasil. Em 2014, a Tecverde implementou a primeira fábrica automatizada de habitações no país, em Araucária-PR, equipada com linhas industriais e sistemas automatizados para a produção de painéis estruturais de vedações verticais, pisos e forros, com alta precisão. A NBR 15575 (Norma de Desempenho) passou a ser de cumprimento obrigatório no mercado habitacional, a partir de 2013.

No estado de São Paulo, entre 2011 e 2015, enquanto diretor de engenharia da JHSF, o autor deste artigo técnico planejou e estruturou a JHSF Engenharia Avançada que desenvolveu soluções de engenharia e projeto, em BIM, de edificações em construção off-site e modular, tendo implantado mais de 30 unidades de casas industrializadas de alto padrão na Fazenda Boa Vista, em Porto Feliz-SP. Trata-se de vilas de 8 a 13 casas, que eram completamente montadas em quatro meses e meio (empreendimentos Residências da Mata I, II e III e Vilas da Hípica, com arquitetura assinada pelo arquiteto Gui Mattos). As casas foram desenvolvidas com chassi estrutural metálico ou em concreto pré-fabricado, com fachada em painéis arquitetônicos de concreto pré-fabricado, lajes pré-fabricadas, banheiros prontos, vedações internas em drywall, caixilhos em PVC, portas prontas, kits de instalações prediais, um smart box conectando as redes de distribuição elétrica e hidráulica e ainda cobertura plana envelopada com manta de impermeabilização de PVC, a primeira aplicação deste tipo de manta no mercado habitacional no Brasil. Neste mesmo período, para a mesma empresa, também sob a direção e projeto e construção do autor, prédios residenciais de alto padrão foram desenvolvidos, além de quatro shoppings, utilizando soluções industrializadas, com ênfase para o Catarina Fashion Outlet, na Rodovia Castello Branco, em São Roque-SP, que foi totalmente industrializado, incluindo as fundações. Vale destacar que a JHSF Engenharia Avançada não fabricava os produtos, mas fazia a gestão da cadeia de suprimentos, da engenharia, projeto, fabricação, transporte, içamento e montagem, através de equipe própria, posicionando-se como uma integradora.

Residencial Haragano | Construtora Roberto Ferreira e Tecverde - Pelotas-RS (2012)

Residencial Haragano | Construtora Roberto Ferreira e Tecverde - Pelotas-RS (2012)

Fábrica Tecverde - Araucária–PR (2014)

Fábrica Tecverde - Araucária–PR (2014)

Residências da Mata | JHSF – Porto Feliz-SP (2011- 2015)

Residências da Mata | JHSF – Porto Feliz-SP (2011- 2015)

Catarina Fashion Outlet | JHSF – São Roque-SP (2014)

Catarina Fashion Outlet | JHSF – São Roque-SP (2014)

Figura 14 – Exemplos de Construções Modulares e Off-site Brasileiras (2012-2015)

A partir de 2016, o setor de edificações multifamiliares industrializadas no Brasil passou por uma importante evolução normativa. Com um projeto de inovação liderado pela Tecverde e a participação de várias instituições (IPT, IFBQ, CAIXA) e agentes privados, foi revisada a Diretriz SINAT 005, regulamentando a construção de prédios de até 4 andares com sistemas off-site. Durante esse processo, foram realizadas missões técnicas internacionais e validações de desempenho. Também foram construídos os primeiros edifícios multifamiliares industrializados em parceria com a Construtora CRM e, em 2018, o Residencial Pinhais Parque, em colaboração com a Construtora Valor Real, tornou-se o primeiro empreendimento HIS Off-site com certificação GBC Condomínio no Brasil (FERNANDES, 2016).

Em 2018, numa parceria entre a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e o SENAI, foi lançado o Projeto Construção 2030, do qual o autor tem o privilégio de participar, que tem como objetivo elevar a construção civil brasileira para a Construção 4.0, com foco na industrialização.

Em 2019 é lançado o Programa Construa Brasil, através de um Termo de Colaboração assinado entre o MDIC e a Rede Catarinense de Inovação (executora do projeto), que tem como objetivo melhorar o ambiente de negócio do setor da construção, incentivando a sua modernização. O Construa Brasil possui metas distribuídas em 03 eixos: Desburocratização (convergência dos Códigos de Obras e Edificações e à agilização do processo de concessão de alvará para construção); Digitalização (difusão do Building Information Modelling – BIM); e Industrialização (incentivo à coordenação modular e à construção industrializada).

Ainda na Fase dos Pioneiros houve uma aceleração importante em 2020, em razão da pandemia de COVID-19, tendo sido fabricados e montados sete hospitais numa aliança entre a Brasil ao Cubo e a Tecverde (prazo médio de 35 dias entre a contratação e o início de operação). É importante registrar que, além desses hospitais, em 2021, a Quick House protagonizou a construção do maior hospital modular da América Latina, com 12.800 m² de área construída, em Nova Iguaçu-RJ. A montagem foi concluída em 60 dias. Estas entregas ratificaram a agilidade e a velocidade da construção modular para resolver situações emergenciais, com edificações robustas e definitivas.

Em julho de 2020 foi criado o BIM FÓRUM BRASIL (BFB), uma associação civil de âmbito nacional, neutra, sem fins lucrativos que reúne os diversos agentes da Cadeia Produtiva da construção, com objetivo de estimular a adoção do BIM no país, tanto no setor público quanto no privado.

Um destaque importante é que desde 2021, o Governo Federal brasileiro, através da Estratégia BIM BR (Decreto nº 10.306/2020), tornou obrigatório o uso de BIM em obras públicas federais.

Em 2021, em Tubarão-SC, a Brasil ao Cubo montou em 100 dias o Edifício Level, com 8 pavimentos, 3.300m² de área construída, o maior edifício modular da América Latina, com 54 módulos volumétricos em aço.

Jose Marcio também enfatiza que 2022 foi um ano de inflexão para a construção off-site, com o ingresso de construtoras e incorporadoras de destaque no cenário brasileiro no segmento de HIS, como a MRV (Residencial Turim em Ribeirão Preto–SP) e a Alea, da Tenda que investiu R$ 300 milhões numa fábrica de casas em Jaguariúna-SP, com capacidade para produzir cerca de 10 mil casas por ano.

5.4.2 Fase dos Colonizadores (2023-2025)

A partir de 2023, o poder público passou a ter papel decisivo na expansão da construção off-site no Brasil, com destaque para a contratação emergencial da Tecverde, pelo Governo do Estado de São Paulo, que implantou 518 unidades habitacionais em cerca de seis meses, na cidade de São Sebastião-SP. Depois disso, em função da situação de calamidade decorrente das enchentes no Rio Grande do Sul, houve a mobilização de várias empresas de construção modular, com destaque para a VISIA, com experiência de muitos anos em edificações modulares rápidas e transportáveis, de diferentes tipologias. A VISIA implantou 625 casas em seis meses. O governo do Rio Grande do Sul passou a estruturar licitações específicas para reconstrução habitacional usando sistemas off-site permanentes (FERNANDES, 2026).

Em 2024 foi lançada a Nova Estratégia BIM BR, com objetivos ampliados, como a coordenação da administração pública federal e a capacitação profissional, uma estrutura de Governança mais robusta e novas metas que visam a criação de condições favoráveis para o investimento público e privado em BIM, além de incentivar o uso de especificações técnicas abertas para a interoperabilidade.

Em 2024, a CMC Modular foi contratada para produzir 1.000 moradias. Para atender esta demanda, firmou parceria técnica com a Kata Off-site, criando uma operação produtiva em Mirassol-SP e depois expandindo para São Leopoldo-RS, aproximando a fabricação dos locais de entrega e aumentando a eficiência logística. Em 2025, novas contratações elevaram o volume para mais de 3.000 unidades, consolidando o governo gaúcho como um dos principais impulsionadores da construção industrializada no Brasil. A situação do Rio Grande do Sul exigiu soluções habitacionais em prazos impossíveis para métodos tradicionais. Assim, a construção off-site deixou de ser apenas inovação e tornou-se estratégica como resposta governamental em situações críticas, graças à velocidade, padronização, controle de qualidade e escalabilidade.

Jose Marcio afirma que a construção off-site no Brasil se consolida entre 2023 e 2025, com avanços industriais, aumento da capacidade produtiva e redução de barreiras tecnológicas. A fábrica da Techome marca essa evolução ao adotar processos industrializados para a fabricação de habitações. O maior salto do período vem da nacionalização dos equipamentos, eliminando a dependência de processos de importação caros e lentos.

A inauguração da fábrica da SteelCorp, em Cajamar-SP, em 2025, equipada com tecnologia totalmente nacional da Kata Machines & Systems, simboliza essa virada: linhas automatizadas, com capacidade para 10 mil unidades habitacionais por ano e implantação em menos de sete meses, tornando-se a maior fábrica de casas em Light Steel Frame da América Latina.

Um outro registro significativo para a evolução da construção modular e off-site, destravando um gargalo importante é que a CAIXA passou a permitir a medição da produção ainda em fábrica para sistemas off-site, promovendo maior alinhamento entre o modelo industrial e a estrutura financeira dos empreendimentos.

A produção de habitações off-site no Brasil permaneceu baixa entre 2012 e 2022, com média anual de apenas 1.000 unidades. Contudo, a partir de 2023, ocorre uma virada importante: o segmento entra em crescimento acelerado, formando uma curva exponencial que, entre 2023 e 2025, eleva a produção para cerca de 4.000 unidades por ano, marcando um novo estágio de escala e de maturidade, caminhando para a consolidação industrial, ganho de escala e eficiência operacional (FERNANDES, 2026). Cabe destacar que o déficit habitacional brasileiro é de cerca de 5,8 milhões de moradias, segundo a ABRAMAT/FGV.

Em fevereiro de 2025, o Projeto Construção 2030 (CBIC, com parceria do SENAI) disponibilizou para o setor de construção civil o Guia para Desenvolvimento e Adoção de Plataformas de Produto na Construção (Parte 1 - Fundamentos).

5.4.3 Fatos Recentes: O que Já Aconteceu em 2026

Embora esta seção se refira ao período de 2011 a 2025, vale a pena destacar alguns fatos relevantes ocorridos em 2026, até a data de finalização deste artigo (julho de 2026).

Em fevereiro de 2026, o Projeto Construção 2030 lançou o Guia para Desenvolvimento e Adoção de Plataformas de Produto na Construção (Parte 2 - Aplicação).

Em maio de 2026 foi lançada a Estratégia Nacional da Construção Industrializada, denominada PROGRAMA CONSTRÓI MAIS BRASIL, que visa modernizar a construção civil brasileira por meio da industrialização, digitalização e inovação tecnológica.

Em junho de 2026, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), disponibilizou o Programa de Capacitação em Construção Industrializada na plataforma da Escola Nacional de Administração Pública (ENAP). São cinco cursos gratuitos de Educação a Distância (EAD) voltados à construção industrializada. O programa faz parte das ações da Nova Indústria Brasil (NIB) e do Projeto Construa Brasil e busca ampliar a qualificação de gestores públicos e privados, profissionais da construção civil, estudantes e demais interessados, com emissão de certificado ao final de cada curso. Os cursos são: Fundamentos de Construção Industrializada, Principais Métodos Construtivos Industrializados, Elementos de Projeto, Planejamento e Gestão da Construção Industrializada e Introdução aos Processos de Produção e Montagem de Construção.

A Expo Offsite 2026 realizada no Brasil, em junho de 2026, em São Paulo-SP, mostrou a maturidade do setor na América Latina, consolidando o país como polo de tecnologia construtiva de elevado potencial para escalar.

Hospital M'Boi Mirim | Brasil ao Cubo e Tecverde – São Paulo-SP (2020)

Hospital M'Boi Mirim | Brasil ao Cubo e Tecverde – São Paulo-SP (2020)

Construção do Hospital Estadual Dr. Ricardo Cruz | Quick House - Nova Iguaçu-RJ (2021)

Construção do Hospital Estadual Dr. Ricardo Cruz | Quick House - Nova Iguaçu-RJ (2021)

Edifício Level | Brasil ao Cubo – Tubarão-SC (2021)

Edifício Level | Brasil ao Cubo – Tubarão-SC (2021)

Fábrica da Alea - Jaguariúna-SP (2022)

Fábrica da Alea - Jaguariúna-SP (2022)

Conjunto Habitacional | Tecverde - São Sebastião-SP (2023)

Conjunto Habitacional | Tecverde - São Sebastião-SP (2023)

Casas Modulares | VISIA - Rio Grande do Sul (2023)

Casas Modulares | VISIA - Rio Grande do Sul (2023)

Grande do Sul (2023)

Grande do Sul (2023)

Fábrica da SteelCorp (projeto Kata Machines) - Cajamar-SP (2025)

Fábrica da SteelCorp (projeto Kata Machines) - Cajamar-SP (2025)

Figura 15 – Exemplos de Construções Modulares e Off-site Brasileiras (2020 a 2025)