Sumário

5. BREVE HISTÓRICO DA INDUSTRIALIZAÇÃO DA CONSTRUÇÃO NO BRASIL

5.3 Etapa de Desenvolvimento (1970 a 2010)

Na década de 1970 o BNH financiou um volume expressivo de Habitações de Interesse Social (HIS). Este programa também passou a abranger outras faixas sociais. As críticas em relação à massificação de conjuntos habitacionais, concentração de implantações na periferia das cidades e deficiências de qualidade se avolumaram. No final desta mesma década, o BNH fomentou pesquisas para novas tecnologias, incluindo uso de concreto pré-fabricado, quando alguns canteiros experimentais foram instalados.

A partir da década de 1970, com a intensificação da implantação de empresas e indústrias multinacionais na região Sudeste, vários fabricantes de pré-fabricados de concreto se estabeleceram na região.

Em 1974 foi fundada a Associação Brasileira da Construção Metálica (ABCEM), que congrega os fabricantes de estruturas, telhas e coberturas metálicas, fabricantes de torres e construtores de linhas de transmissão, fabricantes de estruturas em LSF, empresas de galvanização a fogo e ainda, escritórios de arquitetura, projeto e engenharia. A ABCEM tem como objetivo principal: a promoção e o desenvolvimento do mercado da construção metálica no Brasil.

No final da década de 1970 foi fundada a Associação Brasileira da Construção Industrializada (ABCI), da qual o autor foi presidente, para congregar o segmento de pré-fabricados e além de outros segmentos relacionados à construção industrializada. O propósito da ABCI era promover a divulgação tecnológica e o desenvolvimento da construção industrializada, no Brasil. A ABCI desenvolveu o Manual Técnico de Pré-fabricados de Concreto, livro produzido em 1986 pela Editora Pini, consolidando os sistemas construtivos e peças produzidas pelas diversas empresas associadas. Um dos projetos da ABCI era promover a industrialização aberta e a produção de componentes e elementos padronizados pelas associadas, para viabilizar a construção massiva de HIS. Por divergência entre os dirigentes das empresas associadas, este projeto lamentavelmente não evoluiu.

Ainda segundo Vasconcellos (2002), apesar de todas as vantagens e economias proporcionadas pela construção industrializada, não houve apoio do governo para o desenvolvimento da industrialização. Arquitetos como Paulo Mendes da Rocha, João Vilanova Artigas e Fábio Penteado, propuseram o uso da pré-fabricação no Conjunto Zezinho Magalhães do Prado, em Guarulhos-SP, financiado com recursos do BNH, com a justificativa da economia de escala e da racionalização. Apesar dos benefícios, foram utilizados poucos elementos industrializados nesta construção (CERÁVOLO, 2007).

Outros arquitetos brasileiros, como Eduardo Kneese de Mello, Sidney de Oliveira e João Filgueiras Lima, o “Lelé”, desenvolveram vários projetos com tecnologias voltadas para a construção industrializada no Brasil (GUERRA; MARQUES; LIMA, 2015). Lelé, arquiteto carioca que passou a maior parte da sua vida em Salvador-BA, também fez experimentos e desenvolveu elementos pré-fabricados em argamassa armada. Um exemplo são as Passarelas de Salvador, dotadas de cobertura e existentes nas principais avenidas. Estas passarelas foram projetadas em estrutura mista, usando aço e argamassa armada, em meados dos anos 1980.

Os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), projeto educacional idealizado pelo antropólogo Darcy Ribeiro e pelo então governador Leonel Brizola, foram implantados no estado do Rio de Janeiro (1985 a 1994) utilizando intensamente a arquitetura pré-fabricada em concreto (projetada por Oscar Niemeyer) para viabilizar a replicação, em larga escala, do modelo de escola para oferecer ensino público de qualidade em período integral, aos alunos da rede estadual.

O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) conduziu, em 1983, um estudo para avaliar patologias existentes em alguns conjuntos habitacionais pré-fabricados financiados pelo BNH. Em alguns casos, concluiu-se que a melhor solução seria a demolição destas edificações, em decorrência da produção dos componentes estruturais pré-fabricados, com materiais inadequados (PIGOZZO et al., 2006). Com a crise do Petróleo, em 1979 e a recessão econômica instalada, o BNH passou por diversos problemas, o que culminou, em 1986, com a sua extinção, com a Caixa Econômica Federal (hoje CAIXA) assumindo as funções deste órgão.

Na década de 1990, a tecnologia de pré-fabricação ganhou escala em obras de empreendimentos de maior porte, em edificações industriais, shoppings, hotéis e flats. A Construtora W. Torre introduziu, a tecnologia de tilt-up, com expressiva redução do prazo de execução de obras industriais e de centros de distribuição. A Método Engenharia também investiu na produção e montagem de painéis arquitetônicos pré-fabricados de concreto, para fachada, numa joint-venture com a Bétons Préfabriqués du Lac (BPDL), uma empresa canadense, fundando a Stamp, em 1994. Esta tecnologia e uma série de outras inovações em instalações e em construção seca foram introduzidas no Brasil pela Método, na obra do Condominium Club Ibirapuera (1995), projeto dos arquitetos Jorge Königsberger e Gianfranco Vannucchi, em São Paulo-SP.

Em 2001 foi fundada a Associação Brasileira da Construção Industrializada de Concreto (ABCIC), com o objetivo de difundir e qualificar os pré-moldados de concreto destinados a estruturas, fachadas e fundações, com o apoio da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP).

Também em 2001, na periferia do município de São Paulo, os Centros Educacionais Unificados (CEUs) foram implantados, com elementos pré-fabricados já existentes no mercado, para acelerar o processo de implantação, o que possibilitou a entrega de 21 unidades no primeiro ano do programa. Os arquitetos Wanderley Ariza, André Takyia e Alexandre Delijaicov foram responsáveis pelo projeto inicial que, depois foi assumido pela equipe do Departamento de Edificações da Prefeitura da Cidade de São Paulo (ANELLI, 2004).

De 2003 a 2005, a Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), fundada em 1987, sendo responsável por construir, manter e adequar escolas no estado de São Paulo, adotou o uso de sistemas pré-fabricados de concreto para a construção de escolas públicas, em decorrência das vantagens decorrentes da produção em série, explorando a mesma proposta educacional dos CIEPs. Contudo, diferentemente dos CIEPs, em que as edificações eram idênticas e tinham o mesmo objetivo educacional, no programa da FDE foram realizados projetos diferentes, mantendo-se, contudo, o mesmo partido arquitetônico (FERREIRA; MELLO, 2006).

Os exemplos mencionados e as lições aprendidas com os mesmos apontaram um novo caminho para a construção off-site e modular, mudando a forma de construir e solucionando problemas e demandas que não podem ser resolvidos pela construção tradicional. Contudo, uma evolução mais expressiva aconteceu somente a partir de 2012, conforme registrado na seção 5.4.

Passarela em estrutura mista, em Salvador– BA (Arq. Lelé, anos 1980)

Passarela em estrutura mista, em Salvador– BA (Arq. Lelé, anos 1980)

CIEP Nova Iguaçu-RJ (1994)

CIEP Nova Iguaçu-RJ (1994)

Condominium Club Ibirapuera – São Paulo-SP (1995)

Condominium Club Ibirapuera – São Paulo-SP (1995)

CEU Jambeiro – São Paulo-SP (2003)

CEU Jambeiro – São Paulo-SP (2003)

Figura 13 – Exemplos de Marcos Históricos de Construções Industrializadas Brasileiras (1970 a 2010)